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Passa vento

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Nas horas estranhas na noite,
nos dias que vem e que não,
na falta da brisa e da calma
e também na falta do chão.

Por onde é que você tem andado?
Não sei onde vou te encontrar.
Mas resta no amor a ressalva
de sempre aqui lhe carregar.

Todas as palavras

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Não há som que me perturbe,

nem clarão que me distraia.

Não a toque que me detenha,

nem sabor pra me deixar tentada.

Nenhum perfume me atrai.

E essas minhas palavras,

que solto uma por uma,

não querem ser muita coisa

e nem fazem

nenhum

dos cinco sentidos.

Terça-feira Treze

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Passou a noite em claro.

Disse que voaria.

Tentou mudar de lado.

Escreveu um segredo

em um papel sem pauta.

Mentiu ao telefone.

Leu metade de um livro

que tinha há sete anos,

e nunca tinha lido.

Ouviu uma canção

sobre uma visita.

Gostou dessa canção

de alguém desconhecido.

Cortou algumas frutas,

comeu com algum creme,

que não era de leite.

Foi embora no trem

as cinco e vinte e cinco

que estava programado

pra cinco e dezessete.

Entrou, sentou, dormiu,

esqueceu de ser gente.

Silêncio

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O que você diz

quando faz silêncio?

Branco

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E bem no meio do começo as coisas eram brancas. Não como a luz que enche os olhos pela manhã, nem como nuvens num céu de maio, é branco como leite sendo derramado. Branco vivo que parece olhar e afirmar que ele vai pra onde quer, pois se move livremente. E só agora, vendo essa cor descendo no meio do meio do começo é que se pode indagar que cor era antes? Alguém viu algo antes? Meus olhos acabam crendo que estavam calados para não ver nada, pois se viram não recordam. Esquecer é cruel demais. Eu não vi. Não vi cor nem coisa alguma.

Desperta agora alguém no canto e me chama por um nome que não é o meu, mas olha nos meus olhos e eu atendo então. E não diz mais palavra alguma, só me olha, com o rosto sério e ainda assim vai me dizendo alguma coisa qualquer que rasteja no salão vazio até chegar em mim. E me atinge, me grita e me acolhe depois. Me acolhe como entre braços esguios e sórbios, mas ainda o vejo longe, seus braços mantidos perto de si.

E eu estou tentando, com o branco, o vazio e o silêncio ondulatório. Estou tentando? Mas tentando o que? Não faço nada além de absorver e não sei se dou conta. Já faz muito tempo que o tempo me dá respostas para perguntas que não quero mais saber. E estou vendo as respostas pousando pelas paredes distantes. Distantes.

Essa cor me cansa. Com qual tinta eu posso pintar o vácuo?

Persianas

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Persianas em dia de sol.

Um convite a puxar suas cordas e deixar o dia entrar pela janela.

Pois às vesperas do inverno – que vem pra justificar a profusão de casacos – só o que se quer é um pouco de calor.

Vivos olhos

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Seus olhos no escuro que choram silêncio
me contam em lágrimas amores ausêntes.
Parecem filetes de amor escorrendo
por essa sua face que é sempre tão quente.

Seus olhos fechados tão perto de mim,
que não me pertencem, mas chamo de meus.
São esses teus olhos tão feitos de sonhos
e quando me olham espelham os meus.