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Espaço

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Uma cama estranha, mas que deveria ser dela e sabendo disso a faz sentir convidada a deitar e cruzas as pernas balançando-as ao som do piano. Enquanto ele toca ela lembra de um passado estranho, que as vezes é bom e as vezes é triste. Duas lembranças sem final feliz que se não houvessem acontecido lhe dariam um futuro muito diferente do que ela tem hoje. Durante a música ela viaja pra esse lugar, mora em um lugar diferente, come outra comida, acorda sem despertador e dorme feliz. Lá ela ouve Lou Reed durante o almoço e nunca anda descalça. Há sempre algumas flores e na parede cores abertas, intensas e marcantes. Mas o mais importante é que lá ela sorria mais, ela dançava mais, ela até mesmo cantava melhor. E de repente, mergulhando mais fundo dentro dessa outra realidade, ela via o futuro e sorria, cheia da certeza de que aquele era o melhor lugar pra se estar. E por um momento, um breve e precioso momento, a verdade não importava. O sonho vive no espaço entre as teclas de um velho piano cheio de história e tudo é melhor do que qualquer realidade poderia ser, pois é imune à falha.
A canção acaba depois de alguns minutos e ele a pergunta o que achou. A voz dele soa inicialmente como parte de todo o sonho, amena e confortável, mas a puxa cuidadosamente para a realidade. Ela não tem certeza quanto a música, nem quanto a coisa alguma. Ele a toca outra vez, compreendendo seu silêncio vago, já costumeiro. Dessa vez ela se esforça a ficar consciente e ouvir cuidadosamente a canção. Haverá ainda muito tempo pra sonhar. Talvez tempo demais.

Madrugada

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Movia-se pela calçada vazia, mas poderia muito bem andar pelo meio da rua, pois já não havia carros. O relógio oscilava entre a temperatura e o horário. 16°, 01:23. Caminhava lentamente enquanto pensava, no que mesmo pensava? Já não sabia nem mais porque estava ali. Apenas não havia mais lugar nenhum onde gostaria de estar. Não agora, as 01:27 de uma terça-feira fria de inverno. Os dias eram longos o bastante para que as noites fossem bem dormidas, pesadas pelo cansaço da rotina diurna, mas as noites insistiam em permanecer duras e acesas, alheias a ausência de um sol brilhando no céu, de qualquer calor que envolva a frieza que já habita por dentro. 01:36, talvez tenha algum filme na tv, talvez seja melhor voltar e buscar abrigo debaixo de um teto estranho, sem aconchego, que apenas esconde quem não sabe mais para onde ir. Os passos fazem o contorno em si mesmo e retornam, sem pressa alguma, para o mesmo lugar de onde vieram. Não há mais nada, nem mesmo o medo, para seguir ao lado.

Perdão

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Cortinas brancas, balançando com o vento que entra frio e cortante pela janela. É inverno e o dia está começando a clarear, assim como os pensamentos embaçados. O que havia sido tão grave para tudo acontecer tão bruscamente?
Mudou de estado, mudou de expressão e deixou a alegria para trás, mas não mudou de sentimento. A dor acrescentou-se ao cansaço da viagem, feita as pressas, por impulso, pois não aguentava olhar as paredes e lembrar. Mas ir embora, até então, não trouxe nenhum fragmento de esquecimento. Tudo ainda é vívido e ele ainda não entende bem como aconteceu. Não entende como foi capaz.

Queria pedir perdão. Mas nem mesmo ele aprendeu a perdoar.

Tarde

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Chove sobre os papeis e nenhuma palavra pode ser lida. As linhas, confusas e desbotadas, não abrigam mais nenhuma ordem. E o que resta daquilo que se tinha já não é nada. Cabem apenas na memória algumas frases que estavam salpicadas em meio as treze páginas escritas… E fica marcada uma última, que já cansou de ser lida e ninguém jamais a ela recorreu.

Na última linha, da última página, uma última frase:

 

“E sempre que precisar eu estarei aqui.”

Estampa

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Ela sente o vento passar e tem vontade de usar um vestido de flores amarelas.
E olha que ela nem ao menos gosta dessa cor…

Só que venta um vento, leve, que é quase brisa. E vez ou outra uma folha cai das árvores e vai repousar seca e amarelada na calçada. Esse verão estranho com folhas amarelas. Amarelas iguais as flores do vestido que não é dela…

Novo

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Deixarei as histórias pra depois. Agora é hora de olhar pela janela e ver o Sol se pôr. Mas alguns dias, acabou. No outro segundo, começou. E quem disse que importa? Esquece da chuva que caiu, hoje o Sol entra pela janela. Amanhã se ele entrar pela janela talvez eu não sinta tanto frio. E a vida que esquecer da gente, parou um instante de repente, só pra admirar a multidão que contempla o Sol, que jura voltar.

Onde mora a saudade sempre chove, uma chuva tão fina que não se vê. Mas também é sempre que o tempo vira, a esperança assume esse céu, e o Sol colore o dia.

Agora o Sol some atrás dos prédios, as estrelas salpicam o negro céu, que não é nem tão negro assim. E um vento fresco vai passando, então já é hora de voltar. Se venta os meus cabelos voam, em ondas confusas e desconexas, para alguns lugar que desconheço. Cinco horas para um novo dia, mais 24 para um novo ano, mas quantas outras para nova vida?

Vermelho

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Rosas. Vermelhas. Rosas vermelhas fitadas por um olhar marrom distante, que via no vermelho a vida correndo. Vermelho de sangue, pulsante e quente. Quando a vida se acaba o vermelho vai deixando o corpo, lentamente e lamenta o frio. Vermelho nas flores, cabelos e unhas. Puro, alaranjado, escuro. Vinho caindo na taça. Sempre tinto, geralmente suave. Acende-se a luz, para-se. Vermelho que detêm, vermelho que pune. Em caso de emergência, aperte o botão. Na música, um homem pede que ela não ligue a luz. É cor, sabor, ideia, sugestão. É vermelho.