Promessa

As razões para aquele olhar se mostrar tão distante ninguém conhecia, era um enigma que ela nunca permitiu a ninguém decifrar. E então ela ficava sentada numa velha poltrona de couro marrom, ouvindo uma música baixa e tranquila enquanto lia um livro velho com as páginas com um cheiro amadeirado que só os livros velhos possuem. As vezes levantava seu olhar em direção à porta ou ao corredor. Quando olhava o corredor os seus movimentos eram de mera atenção ao que está se passando ao redor, mas completamente desinteressado em realmente saber. No entanto, quando ela olhava o corredor, uma expressão diferente lhe surgia na face e ela demorava mais o olhar, fixo e longinquo, como que avista-se as nuances de uma outra galáxia.
Se o telefone tocasse ela se levanta lentamente e caminhava até ele, nunca havia gostado de telefone, e se não fosse por seus filhos deixaria de atender as chamadas. Por anos só recebe ligações das mesmas pessoas, mensalmente seu irmão lhe liga para conversar um pouco, e seus filhos ligam quase todos os dias, para verificar como ela está e se precisa de algo. Essas três pessoas, juntamente com suas lembranças, seus livros e seus escritos, eram tudo o que ela tinha na vida, tudo o que fazia ela ainda encontrar motivos para viver.
Nas noites de céu estrelado ela ainda agradece as estrelas por mantê-la calma, mas já não diz que elas trazem esperança, pois já deixou de tê-la em algum ponto do passado. Pede as estrelas que não a deixe só e que traga lembranças de quem está longe…
Toca uma música conhecida, mais antiga do que ela mesma, ela sorri, levanta o olhar do seu livro, olha para o corredor e lembra que um promessa foi cumprida. Seus olhos se enchem de lágrimas quando se deparam com essas lembranças, as mãos enrugadas secam as lágrimas que dessem pelo rosto. Lembranças… foram apenas elas que restaram. Mas aquela promessa foi cumprida.

E vento me diz
que levará as dores,
mas jamais as lembranças

Publicado em: às 16 maio, 2010 em 14:05  Deixe um comentário  
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731 dias

Ela: Você sabe que dia é hoje?
Ele: Quinta feira, 22 de janeiro
Ela: Sim, mas essa data não te lembra nada?
Ele: Não, deveria lembrar o que?
Ela: Foi dois anos atrás que nós nos conhecemos
Ele: É mesmo, parece que já tem mais tempo
Ela: Eu também acho. Foram dois anos bastantes turbulentos, cheios de felicidades desesperadoras e tristezas magnificas
Ele: Eu me lembro do dia, meus pais tinham viajado e você estava sem sono
Ela: Eu me lembro até da roupa que eu usava
Ele: Você e os detalhes
Ela: Sim, sempre os detalhes e manias
Ele: Como nunca dar um fim aos assuntos, sempre deixando alguma coisa pendente
Ela: É pra ter a desculpa de voltar a falar contigo
Ele: Lembra daquele dia do sonho?
Ela: Claro, eu sonhei que a gente estava na praia e você tocando violão e você realmente estava na praia tocando, porem sozinho
Ele: Eu passei aquela noite lá, tocando violão e tentando achar as constelações que você sempre comenta
Ela: E você só consegue ver Escorpião
Ele: Sabe, eu ainda espero por uma noite daquelas, mas do jeito que você sonhou
Ela: Eu ainda tenho noites como aquela nos meus sonhos. Sempre contigo, só nos meus sonhos…

Publicado em: às 22 janeiro, 2010 em 02:22  Deixe um comentário  
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