Promessa

As razões para aquele olhar se mostrar tão distante ninguém conhecia, era um enigma que ela nunca permitiu a ninguém decifrar. E então ela ficava sentada numa velha poltrona de couro marrom, ouvindo uma música baixa e tranquila enquanto lia um livro velho com as páginas com um cheiro amadeirado que só os livros velhos possuem. As vezes levantava seu olhar em direção à porta ou ao corredor. Quando olhava o corredor os seus movimentos eram de mera atenção ao que está se passando ao redor, mas completamente desinteressado em realmente saber. No entanto, quando ela olhava o corredor, uma expressão diferente lhe surgia na face e ela demorava mais o olhar, fixo e longinquo, como que avista-se as nuances de uma outra galáxia.
Se o telefone tocasse ela se levanta lentamente e caminhava até ele, nunca havia gostado de telefone, e se não fosse por seus filhos deixaria de atender as chamadas. Por anos só recebe ligações das mesmas pessoas, mensalmente seu irmão lhe liga para conversar um pouco, e seus filhos ligam quase todos os dias, para verificar como ela está e se precisa de algo. Essas três pessoas, juntamente com suas lembranças, seus livros e seus escritos, eram tudo o que ela tinha na vida, tudo o que fazia ela ainda encontrar motivos para viver.
Nas noites de céu estrelado ela ainda agradece as estrelas por mantê-la calma, mas já não diz que elas trazem esperança, pois já deixou de tê-la em algum ponto do passado. Pede as estrelas que não a deixe só e que traga lembranças de quem está longe…
Toca uma música conhecida, mais antiga do que ela mesma, ela sorri, levanta o olhar do seu livro, olha para o corredor e lembra que um promessa foi cumprida. Seus olhos se enchem de lágrimas quando se deparam com essas lembranças, as mãos enrugadas secam as lágrimas que dessem pelo rosto. Lembranças… foram apenas elas que restaram. Mas aquela promessa foi cumprida.

E vento me diz
que levará as dores,
mas jamais as lembranças

Publicado em: às 16 maio, 2010 em 14:05  Deixe um comentário  
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Pôr-do-sol (Outono)

O sol se punha por trás das montanhas, e ela se perdia em pensamentos enquanto admirava a luz do crepúsculo. Passava a maioria das tardes sentada num antigo balanço de madeira, admirando aquela luz tão bela que só o outono conseguia proporcionar. Todo o céu se tingia de um tom único, impossível de se adquirir através de algum pigmento. Ela sabia que se alguém desejasse pintar aquele belo pôr-do-sol de outono nunca conseguiria colocar na tela aquela composição com toda a leveza que realmente possuía.
Desejava que a vida fosse toda feita de tardes de como aquela, com um sol suave que aquecia sua pele e secava seus cabelos. Desejava sempre poder sentir o arrepio causado por aquele vento leve que batia em sua pele. A vida seria perfeita assim.
Nada mais era necessário quando ela via o céu se alegrando ao pôr-do-sol. Não havia mais dores, nem nada que pudesse magoá-la. Tudo o que existia era paz e frescor.
Se a vida fosse toda tardes de outono, ela seria apenas ela, e os sonhos seriam mais reais, mesmo que ela passasse toda a vida sentada naquele balanço de madeira. Ainda assim, a vida seria mais completa.

Mais um outono pra acalmar a alma, amenizar as dores e renovar os sonhos. Cada pôr-do-sol é como uma canção, como poesia…

Publicado em: às 1 maio, 2010 em 16:43  Comentários (4)  
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Escritos

Eu lhe escrevo todos os dias em meus pensamentos, quase nunca passo ao papel, menos frequente ainda é que lhe entrego. É que minhas palavras as vezes são tão rudes, tenho medo de lhe ferir, e outras vezes são tão belas que penso que lhe cansarão, por talvez ser piegas demais. Mas sempre lhe escrevo.
Escrevo a você em cada parte do meu corpo, como uma invisível tatuagem que vai aos poucos se interligando em mim. Tornei-me um bloco de notas sobre qualquer coisa que tenha você como tema, central ou secundário. Basta que eu possa ler seu nome em meio às palavras.
Você nunca me lê, raramente nota que seu nome já se estampou em meu corpo e que a cada gesto meu pode se notar algo que vivemos ou que deixamos de viver. Acho que não escrevo por você, escrevo para mim mesma, para me manter viva. Você não compreende quão profundo é esse abismo do qual eu vivo a beira, somente esperando um novo sinal.
Eu não sei onde você está, sei apenas que lhe escrevo por uma questão de sobrevivência, já que a vida anda muito difícil. Saiba meu bem, viver é calmo quando se está a beira de um abismo, mas é tão difícil. Tem de ser equilibrista.
E é à beira desse abismo que eu me torno uma coleção de você, onde há cada detalhe que pude filtrar. Daqui avisto o sol se pondo no horizonte, tudo é tão plano que o sol parece estar logo ali a diante, sinto como se fosse apenas ir até o outro lado desse abismo. Mas não tento ir ao outro lado, sei que devo lhe esperar aqui e sei também que se eu atravessar jamais voltarei.
Há algumas palavras que são tão frequentes quanto o seu nome em mim, leio esperança, ilusão e eterno… Elas são tão abstratas, assim como a imagem de seu rosto que eu posso ver quando fecho os meus olhos.
Lembre-se sempre meu Amor, que a espera é silenciosa e atemorizante aqui do abismo em que lhe escrevo e espero.

Publicado em: às 25 abril, 2010 em 13:13  Comentários (1)  
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Carta 2

Eu quero duvidar de você e fingir que você nunca existiu. Quero seguir em frente sem me preocupar com o fato do não ter, quero ser independente de ter você aqui. Não sei se posso, não sei se devo, mas é isto o que quero. Você foi embora e me deixou assim logo quando eu mais precisei de ti. Eu não sei o que fazer, tenho medo do que sera de mim nesse vazio, sinto falta desse algo que você era em mim. Por favor entenda que não estou sendo capaz de seguir sem sua presença, sem o seu apoio, entenda isso e volte para mim, preciso de ver novamente o olhar, as nuances daquele olhar que me encarava com a certeza de quem é. Preciso ver aquela certeza mais uma vez.

Publicado em: às 19 dezembro, 2009 em 22:09  Comentários (2)  
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Pelas teclas de um piano

Um som suave vinha de seu piano. Sons alegres que definiam muito bem as mãos que os tocavam. Ele sabia logo que era ela tocando, pois mais ninguém naquela casa sabia fazer aquelas teclas sorrir assim.
Aquele piano encerrava em si histórias de toda uma vida, ele não emitia apenas notas e arranjos musicais, ele contava histórias, algumas vezes entre sorrisos, outras entre lágrimas. Nas mãos dela aquele velho piano cantava esperanças. Seus dedos compridos e delicados dançavam pelas teclas enquanto ela cantarolava alguma coisa acompanhando o ritmo. Ele apenas olhava, discretamente para não interrompê-la e via ali a alegria da esperança, traçada em som e sorrisos. Quando ela era apenas um bebê ele disse que ela era a renovação e a continuidade da vida. Hoje pode ver que ela é ainda mais que isso, ela é a reinvenção do amar e do viver.

Publicado em: às 5 setembro, 2009 em 18:42  Comentários (1)  
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Nuvens (Inverno)

A lua começa a surgir por entre nuvens escuras em um céu especialmente marinho. Não parecia haver vento, mas era possível sentir o ar frio envolvendo a tudo. O inverno era rigoroso, e isso era bom, são muito boas as noites frias. E a lua seguia subindo lentamente, enquanto as nuvens cruzavam seu caminho com rapidez, logo seguindo o rumo que o vento as impunha. Em qualquer noite comum as nuvens apenas estariam ali para atrapalhar. Mas não nesse dia. Essa não era uma noite comum. Tudo parecia se complementar de uma forma inigualável, nunca houve um céu tão belo assim. Ou será que foram os olhos que nunca conseguiram enxergar a beleza deste conjunto? Tudo parecia mais belo do que nunca, e até mesmo a saudade não doía nesse momento. Apenas por aquela noite estar existindo, apenas pelas lembranças que ela guardava. Aquelas nuvens não estavam alí por acaso, e essa era uma certeza. Elas nunca foram tão belas num céu noturno, e provavelmente, nunca mais serão vistas com tanto amor quanto nesta noite. Porque aquelas nuvens levam consigo algo alem do que pode ser visto, aquelas nuvens estavam cheias de sentimentos sutis, capazes de secar lágrimas e aquietar feridas.

Publicado em: às 30 julho, 2009 em 14:34  Comentários (2)  
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